quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando eu era adolescente, isto é, mais adolescente do que hoje em dia, se isso for possível de se imaginar, eu fui convidada pelas meninas que acabara de conhecer pra um churrasco, que aconteceria em um domingo a tarde, então eu fui de calça jeans, all-star, rímel e uma blusa branca. Quando cheguei lá todas as outras garotas estavam de micro-vestidos e salto ás 3 da tarde. Eu quis muito ir embora não só do lugar, mas da escola e de todas elas por que eu nunca saberia ser aquilo.
  Esses dias eu fui á uma outra festa, a noite, coloquei salto 15 e usei até batom vermelho. Por que eu quis todas essas coisas, mas chegando lá era como se eu tivesse 12 anos por que eu nunca ia saber tentar beijar as pessoas e balançar minha bunda até o chão. Mas de repente fiquei orgulhosa de ter quase 20 por que me comportei bem a noite toda.
  Eu gosto muito de maquiagem, dos saltos e até pinto a unha sozinha. Mas eu nunca liguei muito pra essas coisas, eu gosto mesmo de conversar, de dar risada e discutir a guerra dos sexos. Eu até penso que aceitaria que meu namorado, se existisse, saísse só com os amigos dele pra falar de mulher pelada, ou que nós dois poderíamos nos divertir falando de celebridades bonitas. Eu até acredito que se um dia eu tivesse um marido eu deixaria ele tomar cerveja com os amigos em nosso apartamento ás quartas-feiras até as duas da manhã. E isso seria legal. Mas esses caras que eu sonho que se casariam comigo preferem aquelas garotas que são chatinhas pra fazer as coisas e comer desde que saíram da barra da saia da mãe, elas são queridas por todo mundo. Adoram todas as festas e homem tem que viver é na saia delas respondendo sms 27 horas por dia. Responder mensagem nunca foi meu forte, eu também nunca fui muito requisitada pra festas por que sempre tinha uma desculpa, é que eu não me sentia bem, preferia ler, escrever e pensar sobre todas as coisas que quero fazer e lugares que eu quero ir. Dançar com gente que não ia lembrar o meu nome depois, no fundo, não ia me fazer feliz. Mas as queridinhas gostam disso, os nomes são lembrados, elas chamam a atenção assim que passam, enquanto a única atenção que eu chamo é por ser quieta demais. Ai o tempo foi passando, elas sendo amadas e o meu saco de ser invisível, cheio. A vontade de ser normal estalando.
  Então comecei a observar, as estimadas queridinhas, todos os meninos que eu me interessava conversavam comigo por horas mas acabavam preferindo alguma linda que não entende muito de soma e subtração. Os caras lindos gostando de olhar essas meninas que discutem mais sobre langerie que combina do que práticas sustentáveis. Eu não sou nenhuma madre, mas de verdade gosto de pensar nessas coisas. De pensar como seria o mundo se não existisse sal, ou se eu já estaria casada se tivesse nascido na Índia, como seria a vida se eu tivesse nascido cega e por aí ao infinito e além. Mas as queridinhas se exibindo umas as outras e para todos os caras, ganharam a prefêrencia mundial. Não importa se eles forem chatos, legais, feios, bonitos, todos eles, no final das contas só querem uma lista de com quantas delas já desfilaram. E elas dão risada de quem tem cabelo crespo, de quem não gosta de pagode, de quem não gosta de Crepúsculo, de quem não chupa no primeiro encontro e de quem não é uma queridinha.
  Elas enfeitam o mundo masculino com esse ar de superioridade que eles adoram. Elas superam qualquer boa intenção minha de tentar ser admirada por minhas verdades. No fundo o que me mata é só a hipocrisia com qual as queridinhas choram pra fazer charme pra tratar os caras como se eles não fossem pessoas. Só tenho raiva por que se o mundo não as admira, então eles quem estão errados. E é claro que eu também já quis, muito, chamar a atenção. Só que mais do que isso eu sempre quis ser esperta pra nunca me perder no que os outros diziam, eu queria ser inteligente pra que ninguém mandasse em mim. Assim tendo a noção de que posso adorar todas as feminices possíveis, isso será apenas coisas que eu gosto e não o que eu sou. Por que eu sou muito além disso que pode ser visto. Mesmo que hoje em dia eu consiga, respirando fundo, me divertir tomando cerveja e rindo no meio dos meus amigos. Me destaco só se for fazendo graça, transformando meus dramas em piadas leves com um tom de ironia, fingindo que apesar de não ser boba, posso sim ser leve e simples sem me tornar esse robôwoman. 
  Dou muita risada por aí, acabo sem nenhum crédito quando preciso chorar. Estou sobrevivendo sem saber todas as marcas de jeans, sem saber jogar o cabelo sendo sexy e sem conseguir chamar a atenção dos caras que me afligem. Todos os meus poemas, textos e romances nunca são citados pra que eu não espante ninguém com minhas urgências. Afinal, todos os caras por mais inteligente que eu fosse, aguentasse a barra que fosse, e entendesse a loucura que fosse, no final preferiram ficar com alguém que morre sem chapinha e chora se a unha quebra. E todos os quais dediquei meu tempo e meus textos preferem estar em uma festa rodeados de bundas e cervejas. Então me resta enxergar beleza na imaturidade e doçura que preenchem meus carinhas tão estimados,  a minha espécie de queridinhos que vão me deixando cada vez mais vazia. Eles estão por aí com as queridinhas que não sei qual mandinga fizeram para parecer interessantes.
  Ai, me lembro de que eu quis, por um tempo, ser uma delas. Tentei falar com os caras como se todos eles fossem um só e detestar futebol. Tentei. Mas quando vi já estava dizendo por aí que não devemos culpar o outro pelos nossos traumas e festejando o gol do meu time. Quando percebi, tava fazendo piada outra vez, tentando, inutilmente, conquistar todos com o meu papo inteligente. E deram bola, sim, por algumas horas, durante a aula, quando não tinha nada pra fazer. Ao final do dia procuraram uma queridinha que ia falar das blusinhas caras que comprou e comentar que está usando cinta-liga. No fim das contas são as queridinhas que vão com um homem pra casa. Ao fim do dia me resta apenas controlar minha vontade de surtar, de fumar, de me matar e torcer pra que um dia, eu esteja certa. Mesmo que isso não seja o que ninguém quer. O que todos querem são apenas rostos bonitos, mentes vazias e fotos no facebook. E eu com isso, né? 

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